Tenmoku cone 10: o preto-ferrugem da redução e como acertar

19 de junho de 2026 · 8 min de leitura

Por KeramosLab

Produzido com auxílio de IA e curadoria humana.

Tigela de cerâmica com esmalte tenmoku preto-ferrugem e quebra kaki na borda, sobre superfície de madeira rústica com luz natural lateral

Esmalte tenmoku cone 10: química de ferro saturado, quebra kaki na borda, espessura crítica e resfriamento. Receita-base, UMF e testes de bancada.

O que é tenmoku e por que o ferro faz tudo isso

Tenmoku é um esmalte saturado em ferro — tipicamente 8 a 12% de Fe₂O₃ na receita — queimado em cone 9–10 com atmosfera de redução. O resultado clássico é um preto quase metálico no corpo da peça e uma quebra de cor marcante na borda: o famoso kaki (laranja-ferrugem) ou até vermelho-sangue, onde o esmalte ficou mais fino e a superfície foi reoxidada durante o resfriamento.

A química por trás é direta: em redução pesada, boa parte do Fe₂O₃ é convertida para FeO. O FeO funde a temperaturas menores, aumenta o índice de refração do vidro e cria aquele brilho negro profundo. Nas bordas, onde a camada é mais fina, a reoxidação no resfriamento reverte parte do FeO para Fe₂O₃, gerando o tom ferrugem.

Sem redução — ou com redução fraca — o mesmo esmalte fica marrom-avermelhado opaco. Funciona? Sim. É tenmoku? Tecnicamente, não.

Fórmula Seger UMF de referência

Entender o esmalte pelo UMF ajuda a ajustar sem atirar no escuro. Um tenmoku cone 10 bem documentado na literatura fica na faixa abaixo:

GrupoÓxidoValor típico
RO/R₂O (fundentes)CaO0,55–0,70
MgO0,05–0,15
K₂O + Na₂O0,10–0,20
R₂O₃ (estabilizantes)Al₂O₃0,25–0,40
RO₂ (formadores)SiO₂2,8–3,4

A razão SiO₂:Al₂O₃ fica entre 7:1 e 9:1 — vidro bastante silicoso, necessário para suportar o alto teor de ferro sem opacificar demais ou cristalizar de forma indesejada. O Fe₂O₃ entra como colorante por fora do UMF (calculado sobre 100 da receita base), mas em concentrações tão altas ele também age como fundente secundário — detalhe que afeta o ponto de fusão e a viscosidade.

Se quiser rodar a análise UMF da sua receita antes de queimar, o Keramoslab calcula isso automaticamente — e o artigo como entender o Seger UMF em português explica como ler o resultado.

Receita-base para tenmoku cone 10 redução

Esta receita é ponto de partida. Nenhuma receita da internet (incluindo esta) substitui o teste de bancada no seu forno, com sua argila e seu ciclo de queima.

Material%
Feldspato potássico (Custer ou equivalente)40,0
Sílica (325 mesh)20,0
Caulim (EPK ou similar)10,0
Calcita (CaCO₃)15,0
Dolomita8,0
Talco7,0
Total base100,0

Colorante por fora da base:

  • Óxido de ferro vermelho (Fe₂O₃): 10% (começa aqui; pode testar 8%, 10%, 12% no triaxial)

Densidade de aplicação: 1,44–1,48 g/mL (medida com densímetro ou copo Baumé). Aplique por imersão ou spray para camada uniforme e generosa no corpo (calibre a espessura no seu teste). Nas bordas, o escoamento natural já vai afinar — não tente compensar manualmente na primeira sessão.

Observação sobre o feldspato: feldspatos brasileiros variam bastante em composição. Se usar feldspato nacional, peça a análise química do lote ao fornecedor e recalcule o UMF antes de escalar.

Espessura: a variável que mais ceramistas ignoram

Espessura não é estética — é química. O mesmo esmalte tenmoku se comporta de formas radicalmente diferentes conforme a camada:

  • Camada fina: marrom-ferrugem sem profundidade, sem brilho metálico.
  • Camada generosa e uniforme (zona ideal — calibre no seu teste): preto com reflexo metálico no corpo, kaki na borda.
  • Camada excessiva: bolhas, crawling, possível escorrimento que cola a peça ao suporte.

Use um paquímetro ou teste de corte transversal em biscoito esmaltado antes de queimar amostras. Parece excessivo até você perder uma fornada.

Atmosfera e ciclo de queima

Redução para tenmoku não precisa ser violenta — redução pesada demais pode causar bolhas e pinholes difíceis de eliminar. O protocolo mais comum:

  • Oxidação até ~950°C: queima limpa para eliminar matéria orgânica da argila.
  • Redução leve de 950°C a 1100°C: CO de 1–2% na atmosfera (chama amarela visível, não sufocante). Esta fase converte Fe₂O₃ → FeO no esmalte ainda em estado plástico.
  • Redução moderada de 1100°C até temperatura de pico (cone 10 = ~1300°C): mantém o ambiente redutor sem fechar completamente o registro (damper).
  • Resfriamento: não abra o forno até ~600°C. Aberturas precoces reoxidam o ferro de forma irregular — pode ser intencional (cria efeitos), mas não é controlável de início.

Se você usa forno elétrico, tenmoku clássico não é viável sem modificação. O resultado em oxidação é diferente — não inferior, mas é outra família de esmalte. Veja o artigo oxidação vs redução: diferenças práticas no esmalte.

Resfriamento controlado e o kaki

A quebra kaki se define no resfriamento, enquanto o esmalte ainda está fundido ou pastoso: a superfície fina das bordas reoxida e o ferro cristaliza na superfície. Uma pequena entrada de ar no início do resfriamento aumenta a reoxidação superficial e pode intensificar o kaki nas bordas.

Em forno a gás tipo câmara, você pode testar abrindo levemente o registro do topo por alguns minutos no início do resfriamento. Documente cada variação: a diferença entre um tenmoku preto-profundo e um kaki-dominante muitas vezes está aqui, não na receita.

Segurança: ferro alto e lixiviação

Esmaltes com alto Fe₂O₃ em superfície bem fundida e brilhante geralmente apresentam baixa lixiviação de ferro — o íon Fe²⁺/Fe³⁺ fica aprisionado na matriz vítrea. No entanto, superfícies mal fundidas, opacas ou com crawling não devem ser usadas em contato com alimentos antes de teste específico.

A norma ASTM C738 define o método de ensaio de chumbo e cádmio extraídos por ácido acético 4%; outros metais podem ser ensaiados conforme o laboratório. No Brasil, as referências são a Portaria SVS/MS 27/1996 e a RDC 722/2022 + IN 160/2022. Mesmo um tenmoku sem defeitos visíveis, bem vitrificado em cone 10, precisa desse ensaio: só o laboratório confirma a aptidão para utensílios.

Triaxial antes de escalar

Antes de qualquer fornada de produção, monte um teste triaxial de Fe₂O₃ × espessura com pelo menos 9 amostras (3 concentrações × 3 espessuras). Use a mesma argila de produção, o mesmo ciclo de queima. Registre densidade de aplicação, temperatura de pico (cone pirométrico físico, não só pirômetro digital) e abertura de resfriamento.

Sem esse mapa, você vai repetir o mesmo erro três fornadas seguidas sem saber qual variável mudou. Para entender como interpretar os cones físicos nesse processo, veja cone pirométrico na cerâmica: como usar direito.

Resumo dos pontos críticos

  • Fe₂O₃: 8–12%, começa em 10%, ajusta pelo triaxial.
  • Cone: 10 (≈1300°C), atmosfera de redução moderada.
  • Espessura ideal: camada generosa e uniforme no corpo, calibrada no teste; bordas afinarão naturalmente.
  • Resfriamento: porta fechada até ~600°C; uma leve entrada de ar no início do resfriamento pode intensificar o kaki (teste).
  • Teste de segurança alimentar: obrigatório antes de produção de utensílios (ASTM C738 / Portaria SVS/MS 27/1996, RDC 722/2022 + IN 160/2022).
  • Toda receita é ponto de partida — triaxial documentado é inegociável.

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