Esmalte que Descasca (Shivering): Causa e Como Corrigir
2 de novembro de 2026 · 9 min de leitura
Por KeramosLab
Produzido com auxílio de IA e curadoria humana.

Como corrigir esmalte que descasca: entenda o shivering, esmalte sob compressão excessiva, risco de lascas cortantes e ajuste de expansão térmica.
O que é shivering (e por que é diferente de crazing)
Shivering é o esmalte descascando, saltando ou lascando das bordas, quinas e arestas da peça — às vezes dias ou semanas depois da queima, só com uma batidinha. É o oposto do crazing. No crazing o esmalte está em tensão (expandiu mais que o corpo cerâmico) e racha formando teia de aranha. No shivering o esmalte está em compressão excessiva: ele contraiu menos que o corpo argiloso durante o resfriamento, então sobra esmalte "comprimido" demais, e ele literalmente se desprende da superfície pra aliviar essa tensão.
Isso não é estético, é perigoso. As lascas de shivering têm bordas afiadas como vidro, especialmente em bordas de xícaras, bowls e peças de uso alimentar. Peça com shivering ativo não deve ser vendida nem usada — risco de corte e de fragmento de esmalte ir parar na comida.
A física: compressão não é sempre boa
Um pouco de compressão no esmalte é desejável — é o que dá durabilidade e resistência a microfissuras (crazing leve). O problema é quando a compressão é excessiva. Isso acontece quando:
- O esmalte tem coeficiente de expansão térmica muito menor que o do corpo cerâmico.
- O corpo cerâmico é muito plástico/expansivo (certas argilas com muito talco ou argilas muito queimadas abaixo da maturação).
- A camada de esmalte está grossa demais — quanto mais espesso, mais força de compressão acumulada.
- Geometria da peça: quinas vivas, bordas finas e arestas concentram a tensão muito mais que superfícies planas e curvas suaves.
Na prática, você vai ver o shivering começar exatamente nas bordas — é ali que a área de contato é menor e a tensão de compressão encontra menos resistência mecânica do corpo pra se segurar.
Como diferenciar de outros defeitos
| Defeito | Aparência | Causa raiz |
|---|---|---|
| Shivering | Esmalte lasca/descasca nas bordas, superfície "solta" | Esmalte com expansão térmica baixa demais vs. corpo |
| Crazing | Rede de rachaduras finas tipo teia | Esmalte com expansão térmica alta demais vs. corpo |
| Shelling | Esmalte solta em placas maiores, geralmente por aplicação grossa ou argila crua | Espessura excessiva + má aderência |
| Peeling por underfiring | Esmalte fosco, sem brilho, se desfaz ao toque | Temperatura/cone insuficiente pra maturar o esmalte |
Shivering e crazing podem até coexistir na mesma peça em zonas diferentes — mais um motivo pra isolar a causa com teste controlado, não só olhar a peça pronta.
Como corrigir: aumentar a expansão térmica do esmalte
A lógica é inversa ao ajuste de crazing. Pra crazing você reduz a expansão do esmalte; pra shivering, você aumenta. Os principais alavancas via UMF:
- Aumentar Na₂O e K₂O (feldspatos, nefelina sienita): são os óxidos de maior coeficiente de expansão. Pequenos aumentos já mudam bastante o fit.
- Reduzir Al₂O₃ e SiO₂ em excesso: esmaltes com sílica muito alta tendem a ter expansão mais baixa e podem contribuir pro shivering, especialmente em cones baixos.
- Reduzir B₂O₃ moderadamente: boro em excesso pode baixar demais a expansão em certas formulações, embora o efeito dependa da proporção com os alcalinos.
- Evitar excesso de MgO (talco): talco baixa bastante a expansão térmica — é ótimo pra crazing, péssimo se você já está no caminho do shivering.
Use os cálculos de UMF pra comparar antes/depois numericamente, não só por tentativa — veja o artigo /blog/seger-umf-em-portugues pra entender como montar essa conta.
Ajustes do lado do corpo cerâmico e da aplicação
Nem sempre o problema é só o esmalte — às vezes o corpo é que está contraindo demais:
- Verifique se a argila não está sendo superqueimada (vitrificação excessiva aumenta a contração do corpo, agravando a compressão do esmalte). Confirme o cone real atingido — veja /blog/cone-pirometrico-na-ceramica.
- Reduza a espessura da camada de esmalte. Aplicação grossa é a causa mais comum e mais fácil de corrigir sem mexer em química nenhuma.
- Evite quinas vivas e bordas muito finas no design — um pequeno raio de curvatura na borda já distribui melhor a tensão.
- Confira a compatibilidade de resfriamento: um resfriamento rápido demais pode expor fit marginal que passaria batido num resfriamento lento. Isso também conecta com atmosfera do forno — veja /blog/oxidacao-vs-reducao pra entender como ciclo de queima interfere na superfície final.
Receita-base de partida para cone 6 (ajuste de fit, não definitiva)
Esta é uma base transparente/semi-mate com expansão moderada a alta, pensada como ponto de partida pra quem está saindo de um shivering:
| Material | % |
|---|---|
| Feldspato potássico | 38 |
| Sílica (quartzo) | 22 |
| Caulim | 14 |
| Carbonato de cálcio (whiting) | 16 |
| Frita boráxica de baixa expansão | 6 |
| Nefelina sienita | 4 |
Total: 100%. Colorantes (óxido de cobalto, ferro, cobre etc.) entram por fora, geralmente de 1 a 8% dependendo do efeito desejado.
Essa base tem mais feldspato (alcalinos) e menos boro do que uma receita típica "segura contra crazing" — é proposital, porque estamos empurrando a expansão pra cima. Se depois de testar você perceber que foi longe demais e o esmalte voltou a enredar (crazing), reduza o feldspato gradualmente em passos de 2–3% e reintroduza um pouco mais de frita boráxica.
Teste de bancada é obrigatório
Essa receita é ponto de partida, não fórmula pronta pra produção. Shivering é sensível à argila específica que você usa, à espessura real de aplicação na sua mão, ao perfil de queima do seu forno e até à geometria da peça. Monte uma triaxial variando feldspato x frita x sílica em pequenos incrementos, queime em cones de teste com borda fina e quina viva (pra forçar o pior cenário), e deixe descansar pelo menos 48h antes de avaliar — shivering às vezes demora pra aparecer.
Se o esmalte é pra uso alimentar, depois de resolvido o fit ainda é necessário validar liberação de chumbo e cádmio conforme ASTM C738, e no Brasil observar a RDC 722/2022 e IN 160/2022 da Anvisa (que atualizaram a antiga Portaria SVS/MS 27/1996). Shivering corrigido não significa esmalte seguro — são critérios independentes.
Resumo prático
- Shivering = esmalte em compressão excessiva, descasca nas bordas, risco de corte.
- Corrija aumentando Na₂O/K₂O (feldspatos), reduzindo MgO (talco) e moderando B₂O₃.
- Cheque também espessura de aplicação, maturação do corpo e geometria da peça antes de mexer só na química.
- Sempre valide com teste de bancada antes de ir pra produção ou venda.
Se quiser gerar uma base já calculada em UMF e ajustada pro seu cone e argila, usa a calculadora do Keramoslab em /receita/nova — ela já aponta o risco de fit antes de você queimar.
Pra aprofundar, veja também /blog/como-criar-receita-de-esmalte-ceramico e /blog/seger-umf-em-portugues.
Pronto pra colocar isso em prática?
Gere uma receita inédita de esmalte a partir de uma foto. Validação química automática + 9 variantes pra teste.
Gerar receita grátis →